sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Menino no canto

No canto da sala à esquerda, próximo à janela senta-se um menino. Ele é alto para a idade, 13 anos, mas muito magro. Seus olhos são grandes e estão sempre fixos em um ponto da sala a sua frente. No ouvido traz "acoplados" os fones, espertamente disfarçados sobre os cabelos longos e escuros. De sua boca raramente se ouvem palavras, pois ele é daqueles que só fala quando algum professor mais atento o convida a dizer alguma coisa.
Esse menino, que tem nome de poesia, Omid, que em Persa quer dizer esperança, não se importa com a razão, com cálculos, com engenharias. Ele quer saber da emoção. Da emoção que ele não vê no quadro-negro, mas no traço singelo que a Professora faz ao traçar aquele eme, que mais parece uma onda tranquila no mar e que ele imita com capricho; da emoção que ele sente ao ouvir as canções do Legião ou ao ler os poemas do Quintana e do Drummond.
Esse menino-emoção está ali, sentado, no canto da sala, à esquerda, próximo à janela! Seus olhos fixos me deixam nervosa, mas eu vejo nele a imagem da menina-emoção que um dia eu fui, e então com um leve sorriso  eu o chamo e peço que nos conte o que está pensando, assim, tão quieto. Seus olhos pairam em mim e ele sorri tímido, respondendo "Pensando em nada professora!"


                                                                    Marli Alves Godoi

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